Por Bruno Dorigatti
http://www.riocomicon.com.br/index.php/little-nemo-em-portugues/
Um pequeno menino, que todas as noites viaja para a terra dos sonhos em busca de uma princesa e encontra pelo caminho animais que voam, casas que andam, rainhas que quebram como cristal e um sem fim de figuras e situações psicodélicas e surrealistas.
Little Nemo in Slumberland, tira criada em 1905 por Winsor McCay, não foi das mais populares quando surgiu semanalmente no New York Herald, onde foi publicada até 1911, quando migrou para o New York American, onde saiu até 1913. Na época, Krazy Kat, por exemplo, alcançava muito mais pessoas e repercussão. Mas ao longo do século passado, as tiras em formato grande que ocupavam a página inteira dos diários [e que eram maiores do que os jornais standard impressos nos dias de hoje], passaram a influenciar artistas das mais variadas escolas, matizes e gêneros, seja pela enredo de suas histórias, a maneira como revolucionou o uso dos quadros na página, as cores que usava, a liberdade e o frescor que apresentavam as histórias que não poderiam ser classificadas como destinadas apenas às crianças.
Aos poucos e vagarosamente, foi ficando cada mais perceptível a importância e a revolução silenciosa que Little Nemo causou no mundo das artes gráficas em geral e nas histórias em quadrinhos em particular. Nomes como Moebius (autor de Garagem Hermética, Arzach etc.), Bill Waterson (Calvin e Haroldo), Maurice Sendak (Onde vivem os monstros) são alguns dos mestres a serem influenciados pelas tiras. As cores, vívidas e gritantes, seriam inspiradas em artistas da época, como Paul Cézanne, Toulouse-Latrec e Geogres Seurat. As casas que andam em longas e finíssimas pernas de pau, o cenário e o tamanho dos personagens que aumentam e diminuem, os cogumelos gigantes que se espatifam ao toque, os animais que falam e os demais devaneio oníricos de McCay anteciparam em algumas décadas e provavelmente serviram de inspiração aos surrealistas e suas pinturas absurdas e oníricas.
O grande responsável por recuperar a clássica obra de McCay e apresentá-la aos leitores e amantes de quadrinhos do século XX foi Woody Gelman, fundador da Nostalgia Press, que encontrou uma coleção original das tiras, deu-lhes o devido tratamento e lançou em fac-símile nos anos 1960, quando também exibiu-as no Metropolitan, o afamado museu de Nova York. A tira, aliás, teria sido a primeira história em quadrinhos exibida no Louvre, em Paris, na mesma época.
Little Nemo in Slumberland vem ganhando algumas belíssimas edições lá fora. A da Sunday Press Books, por exemplo, é enorme, em torno de 40 x 50 centímetros, e reproduz fielmente o tamanho, erros e falhas de impressão, restaurando apenas as cores. Já saíram dois volumes com 100 páginas cada, que custam, em média, 100 dólares. Por aqui, a Companhia das Letras informa que vai publicar a obra em 2013 pelo seu selo Quadrinhos na Cia., mas infelizmente não será neste formato e ainda sem tradutor definido.
Em domínio público desde 2007, quando completaram-se os 70 anos da morte do seu criador, a história começa a ter uma maior circulação, sem os riscos de processos ou chiadeira por conta dos direitos autorais. E foi o que fez Muraktama Rodrigues. Terminando seu bacharelado em Letras/Tradução na UFMG, ele pretende trabalhar com tradução de quadrinhos no futuro. Para exercitar o ofício, vem traduzindo e publicando as tiras de McCay on-line desde novembro passado no blog Little Nemo in Slumberland. “É um trabalho experimental que pretendo usar de portfólio para mostrar para as editoras, pois este parece ser um mercado bastante fechado”, contou ele em entrevista ao Rio Comicon.
“Eu já conhecia as tiras do Little Nemo pela importância que elas têm para os quadrinhos, mas só tinha lido algumas até decidir traduzir a obra. Depois de começar a ler, logo me tornei um grande admirador da narrativa e da arte de Winsor McCay. Acredito que qualquer leitor de quadrinhos que dê uma lida nas tiras logo vai notar vários recursos de narrativas bastante comuns a HQs hoje em dia, mas que nas tiras do Little Nemo eram algo inovador e experimental”, afirma Muraktama.
Desde que começou a cursar Letras, ele tinha vontade de trabalhar com tradução de quadrinhos. Conversando com um amigo, Yuri Riccaldone, surgiu a ideia de trabalhar com algum material em domínio público. “Consideramos algumas histórias antigas e decidimos por Little Nemo pela qualidade do material e pela escassez de edições deste quadrinho em língua portuguesa. Infelizmente o Yuri não pôde continuar no projeto, mas eu continuei traduzindo sozinho”, acrescenta.
As histórias, ele conseguiu baixar no The Comic Strip Library, que disponibiliza quadrinhos antigos norte-americanos para download, todos em domínio público. Iniciativa, aliás, que bem poderia servir de modelo para alguma instituição brasileira, como a Biblioteca Nacional, por exemplo, que possui um excelente acervo de clássicos como o Tico-Tico, O Globo Juvenil, Suplemento Infantil e Gibi.
“Como são histórias antigas, a linguagem às vezes é um pouco difícil, principalmente quando usam alguma gíria muito específica da época. Optei por atualizá-la para o leitor moderno, ao invés de usar uma linguagem mais arcaica, e é claro, respeitando o registro da fala de cada personagem. Existem personagens que falam usando mais gírias, como o Flip, e outros que usam uma linguagem mais formal, como o Rei Morpheus ou seus súditos. Tento ser o mais fiel possível considerando cada caso”, explica o estudante.
Já a produção gráfica, ele confessa ser bastante rudimentar. Usa o Photoshop, programa de edição de imagens, para inserir as falas, e escolheu a fonte priorizando o conforto na hora da leitura. “Existem profissionais no mercado que criam fontes para as HQs, como a Lilian Mitsunaga, mas eu não tenho nenhum conhecimento de tipografia, então tento fazer o melhor possível com as ferramentas disponíveis.” Um ponto positivo, segundo Muraktama, é que Little Nemo não usa onomatopeias, um problema a menos para resolver. “Entretanto, vez ou outra eu tenho que modificar alguma coisa que aparece escrita no cenário o que dá algum trabalho, e tem resultados insatisfatórios já que não domino tão bem a ferramenta.”
O jovem se recorda que, quando aprendeu a ler, morava em uma casa sem TV. Em compensação, uma pilha de gibis do Tex o entretinha durante as tardes. “Desde então, os quadrinhos sempre estiveram presentes na minha formação. Aprendi bastante sobre história, geografia e literatura, entre outras coisas, com gibis, uma ferramenta que os professores em geral subestimam, e que poderia contribuir muito para o ensino se usada de forma produtiva. Hoje, como amante da nona arte, tenho um grande interesse por ler histórias que foram importantes e contribuíram no passado de alguma forma para a criação desta linguagem, e Little Nemo certamente está inserida neste grupo de histórias.”
Enquanto a edição nacional não chega, vale a pena deleitar-se com o trabalho de Muraktma, que já publicou 50 tiras das mais de 400 que Winsor McCay fez de Little Nemo in Slumberland. Em 1911, o próprio McCay fez um curta que une trechos filmados e animados, onde aposta com os amigos que seria capaz de animar a sua tira.
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Winsor McCay
Winsor McCay por Felipe Oliveira Rodrigues*
Winsor nasceu dia 26 de setembro, nos Estados Unidos, e foi um grande pioneiro da animação. Há dúvidas quanto ao ano de seu nascimento, mas acredita-se que foi entre 1867 e 1869. Desde pequeno já demonstrava grande talento para o desenho, mas nunca foi encorajado pela família. Ele estudou artes em Chicago quando contava 17 anos e, pouco mais tarde, emplacou seus primeiros trabalhos como desenhista, cobrando 25 centavos para fazer retratos de pessoas nas ruas, ilustrando cartazes de circos, eventos e, dois anos depois, propagandas.
Em 1891 casou-se com Maude Leonore Dufour e foi obrigado a mudar de emprego para conseguir sustentar os dois filhos que adquirira. Agora Winsor trabalhava num jornal, onde era cartunista. A mudança foi boa em sua vida, pois lhe permitiu criar, pela primeira vez, sua própria história em quadrinhos. Seus traços eram intensos, muitas vezes distorcidos e, algumas vezes, até mesmo surreais. Depois de trabalhos de sucesso dedicados às crianças, McCay aproximou sua temática do onírico, narrando os terríveis pesadelos que pode guardar o nosso inconsciente. Como dessa vez ele se direcionava para adultos, criou o pseudônimo de ”Silas”, para conseguir o distanciamento necessário da figura de “Winsor McCay”, já “impregnada” pelas histórias infantis. Essa é considerada a maior obra-prima do autor.
Futuramente a temática dos sonhos foi extendida numa versão para crianças, surgindo assim sua famosa história “Little Nemo in Slumberland”, que, devido ao seu sucesso, virou até peça de teatro.
McCay apresentou-se num anfi-teatro por um tempo, onde conversava com o público e desenhava ao vivo. Foi assim que descobriu a força da platéia e decidiu dedicar-se à animação. Por mais curta que tenha sido sua participação no mundo do cinema, ele revolucionou completamente as técnicas vigentes até então, pois criou um padrão de qualidade nunca visto antes, anunciando sua vanguarda. Dentre seus filmes mais famosos estão “How a Mosquito Operates” e “Gertie, the Dinosaur”.
Mesmo criando animações em duas dimensões (a única técnica até então disponível), Winsor conseguiu criar, pela primeira vez, a noção de profundidade e perspectiva no desenho animado, ajudando a compor técnicas de animação em três dimensões que surgiriam anos mais tarde.
Embora talentoso, minucioso e detalhista, sua carreira como animador não durou muito tempo. McCay decide voltar aos quadrinhos, mas acontecimentos ruins aguardavam sua carreira. Após um desentendimento com o jornal que o empregava, ele decide mudar de empregador. Foi quando sua carreira começou a descender. Suas histórias não mais faziam tanto sucesso, mas ele nunca parou de fazê-las. Seu público mudara e diminuíra, mas mesmo assim Winsor continuou a desenhar pelo resto da sua vida.
Morreu em 1934, na medida em que teve seu trabalho reconhecido no mundo inteiro. Hoje entende-se que sua participação como animador é curta, porém intensa. Ele é tido como um grande descobridor no âmbito da animação e, claro, um grande artista, que atribuiu delicadeza, técnica aperfeiçoada, inovação e criatividade a tudo que fez.
Análise do Filme “How a Mosquito Operates”
Um dos poucos filmes de McCay, “How a Mosquito Operates” demonstra sua aproximação com a temática onírica. Nele, um pernilongo gigante entra no quarto de uma pessoa que dorme e atrapalha seu sono, como já aconteceu alguma vez com a maioria de nós. A diferença é que, no curta, o mosquito tem enormes proporções. Ele enfia sua tromba diretamente na cabeça do homem, o que causa enorme desconforto a quem assiste. Para a platéia da época, era a primeira vez que se experimentava essa repulsa ao assistir um filme, sendo que esse desconforto foi comparado ao do curta surrealista “Um Cão Andaluz”, de Buñuel, onde uma navalha corta o olho de uma mulher.
Além da temática ousada, McCay inovou, como sempre, na técnica, utilizando-se de uma perfeição detalhista incrível.
O Filme persiste na memória dos grandes amantes do desenho animado e ainda é referência internacional quando se trata de vanguarda, deixando claro que se chegamos ao grande nível técnico de hoje, o nome “Winsor McCay” foi de extrema importância para isso.
BIBLIOGRAFIA:
*http://www.algosobre.com.br/biografias/winsor-mccay.html
*http://www.popbaloes.com/bios/mccay.htm
*Felipe Oliveira Rodrigues, 18 anos, é estudante do Primeiro Periodo do curso de Cinema e Video da UNA.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Winsor McCay
Winsor mccay por Luiza Fernanda Meira *
Para o surgimento da animação, tal qual conhecida hoje, foi preciso um longo processo de experiências, pesquisas e aperfeiçoamentos. A animação possui vários antecessores como, por exemplo, os brinquedos ópticos e os quadrinhos. Os primeiros vestígios da animação surgiram no cinema de atrações, tendo como principal representante o francês George Méliès. Ele utilizava técnicas de trucagens, as chamadas “paradas para substituição”, fazendo substituições de objetos na cena. Um pouco mais tarde surgiu a lightning sketches, que era um tipo de apresentação que misturava o desenho e a performance ao vivo do desenhista, um dos praticantes dessa técnica foi James Stuart Blackton, em seus filmes é comum à aparição da sua mão várias vezes, pois ele ainda não tinha dominado completamente o ato de fotografar frame a frame. Depois desses precursores do “inicinho” da animação surgiu Winsor McCay, considerado o pioneiro do desenho animado.
McCay nasceu em 26 de Setembro de 1867 em Spring Lake no estado de Michigan nos Estados Unidos. Desde criança ele já apresentava características notáveis de que seria um bom desenhista, aos 17 anos foi estudar artes em Chicago. Suas obras eram admiradas por donos de jornais que o convidava para trabalhar com eles. Ele chegou a fazer cartazes para circos, para eventos, cartazes de propagandas, cartoons para jornais, etc. Em 1899 trabalhou para a revista Life fazendo desenhos de humor. A principal característica de McCay era a persistência e a noção de realidade em seus desenhos exuberantes, ele possuia um dom como poucos, como diz Lucena Júnior:
McCay já desfrutava de fama e reconhecimento quando resolveu entrar no cinema de animação. Era um extraordinário desenhista. A sua ousadia foi justamente transpor para a tela seu sofisticado estilo gráfico, há muito estabelecido nas histórias em quadrinhos que ele desenhava, sem comprometer a qualidade de seu complexo design. (LUCENA, 2005,p.54)
A primeira experiência de McCay com animação foi quando ele realizou em 1911 o Little Nemo in Slumberland, era uma adaptação do seu quadrinho mais conhecido, segundo Lucena Júnior (2005), antes dele já haviam sido realizadas várias adaptações de quadrinhos, porém, nenhuma em animação, essas adaptações eram destinadas a filmes de ação ao vivo. McCay possuia grandes influências do francês Emile Cohl que era mestre em metamorfoses e anamorfoses. Seus personagens de Little Nemo in Slumberland tinham formas exageradas, distorcidas, alongadas e deformadas, era umas das primeiras características das animações de McCay.
Em 1912 ele surge com um novo trabalho, um tanto contestador, inovador, provocante e até mesmo cativante, ele desenvolveu seu primeiro personagem com características humanas, que dialoga diretamente com os espectadores, tal personagem era um mosquito de How a Mosquito Operates. Lucena (2005,p.57) afirma que “ o artista decide trabalhar a personalidade de seu personagem como recurso expressivo e de identificação com o público”. Através dessa animação McCay consegue prender a atenção do publico, algo consideravelmente difícil para uma animação da época.
Os desenhos de McCay eram únicos, de uma fineza e estrutura nunca feito antes no cinema, ele possuía domínio de técnicas artísticas avançadas, “assim, encontramos o artista com total controle sobre seus recursos, circunstância ideal para que venha à tona sua qualidade pessoal, sua marca pessoal que particulariza uma forma e a transforma em arte” (LUCENA,2005,p.56)
Em 1914 McCay realiza sua primeira animação grandiosa, considerada um marco da história da animação. Gertie the Dinosaur foi trabalhado detalhadamente, cada traço, cada movimento, cada contorno eram feitos e refeitos centenas e até mesmo milhares de vezes, McCay chegou a refazer o cenário mais de cinco mil vezes, tamanha era a sua preocupação com o perfeito. Segundo Lucena Júnior:
Aqui estavam, definitivamente, estabelecidas as bases do personagem de animação, com o delineamento de sua personalidade por meio de um trabalho de concepção visual integrado a movimentos típicos que lhe dão estilo e criam as condições para sua individualização. (LUCENA ,2005,p.59)
Suas obras foram inspiradoras para vários outros desenhistas e animadores que o sucederam, o sucesso de Gertie fez com que McCay jamais fosse esquecido no mundo da animação, ele é sempre citado quando o assunto se trata de grandes nomes do cinema. Suas obras também foram influências para o maior nome da animação, Disney, que tomou por base as técnicas e características presentes nos personagens de McCay.
Até sua morte McCay nunca havia parado de desenhar, ele chegou a realizar várias outras animações, posteriormente se voltando completamente para os quadrinhos.
BIBLIOGRAFIA
•COSTA, Flávia Cesarino. Primeiro Cinema. In: MASCARELLO, Fernando (org). História do cinema mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006.
•LUCENA, Barbosa Júnior. Arte da Animação. Técnica e estética através da história . -2º ed- São Paulo : Editora Senac São Paulo,2005.
•www.algosobre.com.br/biografias/winsor-mccay.html
*Luiza Fernanda Meira, 19 anos, estudante do Primeiro Período do curso Cinema e Vídeo do Centro Universitário UNA
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Winsor McCay
Winsor MacCay por Bárbara Cherubini de Souza*
Winsor McCay nasceu em 1867, provavelmente no Canadá. Foi criado em Michigan, onde desde uma idade precoce, começou a desenhar prodigiosamente. Aos 13 anos ele desenhou uma figura de naufrágio na lousa da escola, que foi fotografada e teve cópias vendidas. Sua atenção e memória para detalhes eram surpreendentes.
Apesar de seu talento, sua família não o encorajou a seguir o caminho das artes, mandando-o aos 19 anos a uma Escola de Comércio para aprender uma “profissão de verdade”. Mas McCay logo largou a escola e se distanciou de sua família.
Seu primeiro trabalho como desenhista foi em Detroit em um Dime Museum , que eram centros de entretenimento e educação moral para a classe trabalhadora, muitos deles imigrantes. Lá ele desenhava retratos de pessoas por 25 centavos, e foi lá que começou a atrair um grande público e pôde fazer algumas aulas de desenho com um professor local.
McCay deixou Michigan para ir à Chicago em 1889, onde trabalhou com o artista Jules Guerin. Em 1891 se mudou para Cincinnati, onde se estabeleceu trabalhando como artista pessoal para um Dime Museum local. Casou-se, teve dois filhos, e começou a fazer desenhos para um jornal local. Foi aí que desenvolveu suas habilidades com a caneta, pois até então tudo havia sido criado com lápis e pincel. Além disso, ele completou sua renda através da apresentação de desenhos para a revista Life em 1899.
A partir da base proporcionada por Emile Cohl, McCay era a garantia da continuidade do desenvolvimento da animação. Seu talento já estava mais do que comprovado, além de possuir uma percepção da dimensão artística da animação. E foi essa capacidade que permitiu a construção e manipulação plástica no desenho de uma maneira aparentemente impossível, devido a uma tecnologia até então primitiva.
Ao contrário de Cohl que simplificou seus desenhos para que fosse conveniente à produção de várias imagens, McCay foi ousado, transpondo para a tela seu sofisticado estilo gráfico já reconhecido em suas histórias em quadrinhos, em que desenhava sem comprometer seu complexo design.
Nesses quadrinhos era possível notar seu espírito inovador. Sua concepção fantasiosa era altamente original, distinta das ilustrações visionárias anteriores. Sua configuração é rica, mesmo com seus traços econômicos e estáveis, estabelecendo um equilíbrio em sua arte. Ele possuía total controle sobre seus recursos, o que é essencial para que venha à tona sua qualidade e marca pessoal, que particulariza uma forma e a transforma em arte.
McCay não parou de criar novas personagens e quadrinhos, mas foi em 1911 que ele eternizou seu nome e revolucionou a história em quadrinhos. Devido à sua habilidade em simular movimentos naturais, seu primeiro filme Little Nemo fez o público perceber que a animação era uma arte com características próprias, composta por desenhos que rapidamente iam definindo sua linguagem.
As tiras eram sobre um pequeno garoto, Nemo, que viajava pelo mundo dos sonhos, sempre acordando no final da página encerrando sua aventura. O visual de Nemo foi baseado em Robert, filho de McCay. A popularidade de Little Nemo cresceu rapidamente e logo o personagem passou a endossar outros produtos, como roupas, brinquedos, cartões postais, livros e jogos. Em 1908, Victor Herbert escreveu uma peça de teatro apresentada na Broadway com Nemo como protagonista.
A habilidade de McCay com os movimentos é resultado de sua aguçada percepção e análise dos movimentos humanos e animais, além de seu talento como desenhista, afinal, apesar de mirar-se na realidade, os movimentos eram abstratos, servindo ao interesse expressivo da personagem.
McCay se valeu dos mesmos recursos técnicos (tinta nanquim em papel de arroz) que haviam atingido sua melhor condição com Emile Cohl, o que prova que toda evolução no seu trabalho é de ordem meramente artística. Ele faz uso de elementos formais e códigos visuais explorados por Cohl, como metamorfoses ou linhas que se movem aleatoriamente para se misturar e dar origem a figuras completas, porém vai além na experimentação de conceitos fundamentais para a animação, tanto que chega a tocar em aspectos mais avançados, como a aplicação das características de personalidades. Além disso, para mostrar a eficácia dos movimentos, valeu-se bastante do sistema de flipagem, também conhecido como livro mágico, usando um modelo maior do mutoscópio, que tirava melhor proveito da flipagem, e um cronômetro.
Em 1914 McCay se supera criando Gertie the Dinosaur, considerado o primeiro grande marco da história da animação. Para criar o filme, McCay arrastou milhares de frames de Gertie em cada 6,5 x 8,5 polegadas de folhas de papel de arroz. Ele contratou seu vizinho e estudante de arte John A. Fitzsimmons para desenhar os cenários. Fitzsimmons cuidadosamente re-traçou as rochas, o lago e a árvore em cada folha de papel de arroz. Esse cenário estático foi redesenhado mais de cinco mil vezes, mas foi nesse filme que todas as conquistas de McCay são incorporadas, e é quando surgem vários dos princípios da animação que mais tarde se tornariam padrões nessa indústria.
McCay dedicou sua vida a desenhar e faleceu em 1934. Suas habilidades, seu cuidado com os detalhes, sua noção de espaço, tempo e design de páginas marcaram toda uma geração de criadores de quadrinhos. Um ótimo exemplo é o sucesso de Gertie, que se mostrou tão popular que gerou falsificações, mas por outro lado impressionou dezenas de jovens artistas que se decidiram pela animação e deram continuidade ao seu desenvolvimento, como Walter Lantz (criador do Pica-Pau), Dave Fleischer (criador de Koko o palhaço, e inventor da rotoscopia) e Dick Huemer (um dos mestres que forjou a fama dos Estúdios Disney).
Tamanha é a importância de McCay que no ano de 1972 foi criado o prêmio Winsor McCay Award, que se destaca como uma das mais altas honras dadas a um indivíduo na indústria da animação, em reconhecimento às contribuições para carreira da animação. Vários artistas como os Irmãos Fleischer, Walter Lanz, Tex Avery, Chuck Jones, Otto Messmer, o próprio McCay, entre tantos outros já receberam o prêmio. Em 2009 os vecedores do prêmio foram Tim Burton, Bruce Timm e Jeffrey Katzenberg.
Bárbara Cherubini de Souza, 19 anos, estudante do 1 Periodo de Cinema e Video da UNA
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